quinta-feira, 7 de março de 2013

Sinergias

É-nos difícil como pessoas, como seres humanos, darmos o braço a torcer ou darmos apenas a mão à palmatória quando nos apercebemos que estamos errados. Quase tão difícil como quando nos apercebemos que alguém de quem gostamos meteu a pata na poça.

Com a mesma garra que nos protegemos, defendemos os nossos. Somos companheiros. Amigos ou amantes, pouco importa. Lutamos com unhas e dentes e cuidamos de quem gostamos como se fossem nós próprios, até quando temos a certeza de que é errado fazê-lo.

Devemos esperar alguma coisa em troca? Será justa e merecida a defesa até ao último recurso? Acredito que varie de pessoa para pessoa, de situação para situação. Continuo a acreditar que a história tem muitos capítulos e personagens e que é impensável e redutor colocá-la num saco só.

Arrependimento? Sim, sei o que é.

É um dos piores sentimentos do mundo.
Ao mesmo tempo, é um dos que mais nos ensina.

Se voltava atrás? Mentiria se dissesse que não. Sei que, como sou, voltaria a fazer o mesmo porque acredito que os nossos hão-de o ser sempre. 
E um dia há-de valer a pena.

domingo, 3 de março de 2013

Porto

Cinzenta mas com um sotaque carregado e solarengo, fria mas de gente acalorada. Assim é o Porto: a cidade das pontes e do Douro que nos molha os pés, esse lugar de afectos e de saudade, de palavras inesquecíveis e lágrimas que jamais secam. Assim é este paraíso mágico que nos crava memórias na pele com a força de uma vida.

É Porto de família, Porto de amigos. Porto que enche e preenche a alma como se fosse sempre a primeira vez. Porto que levamos na memória sempre que, com dor, o abandonamos. Porto de recantos que não se esquecem. Porto de pessoas que marcam. Porto emotivo, Porto nostálgico, Porto quente.

Porto de passagem para alguns. Porto de paragem para todos os que respiram o cheiro a vida.  Porto de ontem e de sempre. Porto de abrigo. Porto de encontros e desencontros. Porto que faz esboçar sorrisos e deixar cair lágrimas. Porto que se desprende em gargalhadas e em arrepios que não passam. 

Assim é o Porto que me viu nascer, o Porto que me fez crescer.

Porto é Amor.
Amor que nunca morre.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Recados

Consciente ou inconscientemente, deixamos recados todos os dias.

Podemos escrevê-los num papel antigo, à pressa, antes de sair de casa ou deixar uma mensagem de voz no telemóvel do amigo que insiste em não atender. Também damos recados quando subimos o volume da voz e o tom de ameaça fica iminente nas nossas palavras (a este, chamamos "o recadinho").

Há recados que damos de forma pensada e consciente, com um objectivo, um propósito. E depois há os outros: os que se dão sem notar, por impulso, causados por uma vontade-mais-que-absurda, por algum distúrbio obsessivo ou simplesmente por um ápice de loucura.

E são esses que guardamos. Uma palavra bonita que sai sem querer, um pedido exagerado ou fora de ritmo, um abraço inesperado, uma gargalhada em sintonia, um presente especial. Há recados "que nos beijam como se tivessem boca".

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Por entre os dedos

Vivia uma realidade completamente nova. Não sabia como lidar com aquele cenário de filme. Não sabia dar carinho, não sabia dar atenção, nem sequer sabia pedi-la. Isso da entrega era novo, desconhecido, como um mergulho que se dá de cabeça sem pestanejar, sem medo de bater no fundo.

E como não sabia nada, limitava-se a reagir por impulso, à defesa, sempre a medo. Sentia que tinha um objecto frágil nas mãos, algo que a qualquer momento lhe podia escorregar por entre os dedos, sem que nada pudesse fazer para o reparar. A sua missão era apenas uma: proteger.

Reagia de forma maternal e (muito) exagerada como, aliás, reagem sempre as boas mães. Sabia admitir que o método talvez não fosse o mais ortodoxo, tinha consciência que nem sempre fazia as coisas da maneira certa, mas não sabia deixar de o fazer. Mesmo que soubesse, nada mudava: não queria, por nada, deixar de o fazer.

Chamava-lhe instinto de amor.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Maria

De olhar inocente e sorriso fácil: assim é Maria.

Maria é um poço de ternura, uma menina carregada de sonhos na bagagem que, à primeira vista, parece tímida, frágil e resguardada de tudo e de todos.
Mas Maria não pode ser analisada de passagem. Maria merece toda a profundidade deste mundo e do outro.
Guarda dentro dela uma força e uma garra incomuns, uma vontade de ser sempre mais e melhor, uma necessidade absoluta de realizar todos esses sonhos que transporta e de caminhar sempre de mãos dadas com os que ama.
Maria é um exemplo de coragem, de cumplicidade, de transparência. Maria é um ícone de sabedoria, de companheirismo e de amizade. Maria é mais do que isso. Maria é irmandade, espelho de alma e reflexo de vida.

Maria é criança, caçula e princesa.
Maria é mulher, a conotação mais flagrante de pureza e de amor.

É fácil gostar de Maria. Mais fácil ainda é apaixonar-se por Maria, a menina de cabelos longos e aloirados, de olhos doces e covinhas encantadoras. Quem, por sorte, se cruza no seu caminho, quer (e faz questão) de a manter sempre por perto.

Maria é o que mostra e o que esconde. Maria é o que agrada e o que assusta.
Maria é uma demonstração de carinho, um abraço apertado, uma inspiração.
Maria é trabalho e lazer, é (ir)responsabilidade comedida.
Maria é música calminha e MEC.
Maria é um sorriso cúmplice e uma gargalhada desprendida.

Maria faz bem, sabe bem e soa sempre bem.
Maria é-o-que-é: palavras atrás de palavras.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Coragem

Ele não tinha coragem. Brincava, fazia trocadilhos, ria-se, fazia-a rir, mas não tinha coragem. Ela não tinha coragem. Falava por meias-palavras, sorria, inventava formas de se pronunciar, mas não tinha coragem.

Faltava-lhes a oportunidade, o momento mais-que-certo, o timming.
O resto estava lá, mais presente do que nunca. Mas não era suficiente.
Ele sabia que não.
Ela sabia que não.

Faltava-lhes coragem mas soava cada vez mais alto, gritava cada vez mais alto aos ouvidos.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Sol

O espreguiçar dela era diferente desde aquele dia. Até o apagar a luz e fechar os olhos para dormir passou a ter outro sabor. Acordava com a certeza de que tinha o mundo nas mãos e deitava-se feliz por o ter encostado ao coração.

O sorriso, aquele sorriso tão dela, estava no auge, todos os dias, desde aquele dia. Sentia-se feliz. Feliz mesmo. Respirava fundo e dançava com a alma.
A cada passo que dava, mais certeza tinha do bom que era estar feliz. Feliz mesmo.

Cantava constantemente e toda a gente tinha a sorte de levar com o seu (antes raro) bom humor. Tudo parecia agora mais bonito, com mais cor. Ela própria estava meiga, carinhosa, compreensiva. Estava feliz. Feliz mesmo.

Os dias eram longos mas passavam à velocidade da luz. Contraditório, como a vida. Em contra-relógio, em modo decrescente, contava as horas, os minutos. Os segundos a passar soavam alto aos seus ouvidos. Já faltava pouco.

Ela estava feliz. Feliz mesmo.