segunda-feira, 25 de junho de 2012

Palavras, cigarros e cafés

Ela conheceu-a por acaso, porque o destino a juntou a alguém que lhes era comum. Conheceu-a sem nunca esperar nada, sem nunca esperar mais do que era previsível. Com o tempo, o destino afastou-a desse alguém que lhes era comum e aproximou-as de uma forma que é difícil descrever, que nem as palavras, amantes de ambas, conseguem definir com toda a exactidão. O destino aproximou-as, a empatia aproximou-as, as palavras aproximaram-nas. São tão iguais que era quase impossível não ficarem assim, amigas. Hoje, para Ela, a mais pequena, aprendiz, Ela é mais do que uma amiga, mais do que uma parceira, mais do que uma companheira de escrita, de percursos e de vida. É uma inspiração, no verdadeiro e lato sentido da palavra. Uma inspiração no seu todo, com todas as letras, com toda a admiração e com todo o respeito. É um exemplo, um protótipo, um espelho do que Ela, pequena, sonha um dia ser. Dá-lhe segurança, dá-lhe coragem, dá-lhe páginas de romances e conselhos de vida. Acima de tudo, dá-lhe palavras. E é com as palavras que Elas se entendem. É nas palavras que elas se entendem. Afinal, é de palavras que vivem e são essas que as fazem suspirar.

domingo, 24 de junho de 2012

Ele e Ela

Acordou com o coração apertado, sentia falta de uma presença, de um corpo. Sentia a falta da presença Dele, do corpo Dele. Estava consciente de que a sua presença e o seu corpo eram impossíveis de prender, pelo menos naquele momento, naquele dia. Contentava-se em saber que Ele estava bem, feliz, mesmo estando longe. No entanto, não deixava de sonhar com o dia do seu regresso. Com Ele viria a presença, viria o corpo. Com Ele, viriam momentos mais-que-perfeitos, rabiscados a pincel, realçando o que de mais bonito há. Com Ele, viria a parte Dela que falta. Viriam noites na praia a namorar a lua e as estrelas, viriam horas e horas de boas conversas, beijos quentes e amor e paixão que não têm fim. Com Ele, Ela voltaria a perder a noção do tempo. Com Ela, Ele continuaria sem noção de nada.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Balança

Ele falava-lhe ao ouvido, cuidadosamente, como se tivesse medo que as suas palavras pudessem ser mal interpretadas. Recitava cada sílaba, parava por segundos em cada vírgula e respirava fundo a cada ponto final. 

Ela, estranha, impossível de alcançar, ouvia. Desprezava-o mas não deixava de prestar atenção. Fazia-o, à sua maneira.

Ele insistia, pensava em cada frase, desenhava cada adjectivo como se fosse vital.

"- Não prestas atenção ao que te digo?"

"- Eu estou a ouvir tudo", retorquiu.

"- Não pareces minimamente interessada."

E Ele não percebia porquê.

"- Sabes, nós pomos nas palavras o peso exacto que elas têm e as tuas, pesam bem mais do que o que deviam."

terça-feira, 19 de junho de 2012

Limites

Antecipo-me. Ando à frente do meu pensamento e da minha própria vontade. Sinto que nada me acompanha, que nada caminha à velocidade alucinada dos meus passos e do meu coração. Sei que, indiferente ao resto do mundo, longe dos olhares reprovadores e dos silêncios que magoam, vou continuar acelerada, ao ritmo da determinação que me faz querer ser mais e melhor. Sempre. Acredito que a força e a coragem caminham de braços dados, qual casal que partilha amor e desavenças há tanto tempo que nem o tempo consegue contar.
Acelerada, ao meu ritmo, à minha velocidade, desenho cada palavra que pronuncio, cada olhar que denuncio, cada beijo que, com vontade, retribuo a quem me ama.
Acelerada, à frente de mim própria, a um ritmo alucinante, assim sou. E assim hei-de ser, até ao dia em que precisar de reduzir para segunda para poder acelerar novamente. Hei-de ser assim até ao ponteiro voltar a atingir o limite. O meu limite.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Ela

Há coisas que não são feitas para se perceberem, que não são vividas para serem explicadas. São como são e ponto final. E se forem boas, há que as aproveitar sem grandes dramas e sem grandes dúvidas. Ele esperava por Ela há muito tempo. Por Ela, mulher que cuidadosamente desenhou, traçando todas as curvas, todos os pormenores. Esperava que Ela, um dia, lhe batesse à porta mas já não tinha grandes esperanças. Num repente, quase sem se aperceber, Ela estava rendida aos seus encantos, ajoelhada aos seus pés.
Sonho? Talvez. E cada um é do tamanho dos sonhos que tem.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

M.

Altiva, segura e desconfiada. É ela sem tirar nem pôr. Encoberta por um longo vestido preto, de pés no chão e pernas que não acabam, M. desfila pelas ruas da cidade que a viu nascer, sem que nada a preocupe, sem que nada a faça tremer, sem que nada a faça parar.

Repara-se nela ao longe. A forma como coloca os pés, a velocidade a que caminha, a ingenuidade com que fuma o primeiro cigarro do dia. M. é M. sem tirar nem pôr: natural, autêntica e singela.


Adorna um sorriso que a nada se compara: fácil, espontâneo e feliz. M. transpira felicidade, transpira verdade, transpira legitimidade. M. de olhar intenso e nariz empinado, M. de cabelo esvoaçante com vida própria, M. de tiques picantes.


M. arrrepia-se sem esforço, ri sem regras e namora o sol e a lua como se fosse sempre a primeira vez. É M. de alma e coração, é M. por dentro e por fora. É amor e luta incessante. É manga com trunfos. 
É M. de Mudança e M. de Mulher. M. de Movimento, M. de magia.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Suspiro

(Suspiro). Belisco-me vezes e vezes sem conta. Confirma-se, é real. Mas ainda nem sequer soa na perfeição ao ouvido. Impõe respeito e algum cuidado no manuseamento. Ainda é frágil e pouco trabalhado, por muito irónico que pareça. Fez-se notar mais cedo do que alguma vez esperei. No entanto, não deixa de ser a confirmação de uma certeza que sempre tive. (Suspiro outra vez).

Sempre soube. Mais tarde ou mais cedo, hoje ou amanhã, aqui ou do outro lado do mundo. Sempre soube. Somos o que queremos ser e eu, sou mulher de papel e caneta. Agora que o sonho se tornou real é hora de respirar fundo (e suspirar uma vez mais). É hora de pousar os pés no chão e acreditar que a realidade é aquela com que sempre sonhei.

Venci batalhas, engoli sapos e resolvi o que chegou a parecer irremediável. Vivi um ano intensamente, sem nunca desistir, sem nunca baixar os braços. Dia após dia, noite após noite, dei ao jornalismo mais do que alguma vez dei a alguém. Ouvi bons conselhos, fiz muitos amigos e ganhei a experiência que me faz estar onde estou hoje.

Testemunhei promessas de sonhos por cumprir. Hoje, sou a personagem principal de um sonho que se cumpre, a personificação do bom que é fazer o que realmente se ama. A que é que sabe? Sabe a recompensa, a reconhecimento, a guerra vencida e a muitas bocas caladas.

No fundo, sabe a sonho realizado.