quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Recados

Consciente ou inconscientemente, deixamos recados todos os dias.

Podemos escrevê-los num papel antigo, à pressa, antes de sair de casa ou deixar uma mensagem de voz no telemóvel do amigo que insiste em não atender. Também damos recados quando subimos o volume da voz e o tom de ameaça fica iminente nas nossas palavras (a este, chamamos "o recadinho").

Há recados que damos de forma pensada e consciente, com um objectivo, um propósito. E depois há os outros: os que se dão sem notar, por impulso, causados por uma vontade-mais-que-absurda, por algum distúrbio obsessivo ou simplesmente por um ápice de loucura.

E são esses que guardamos. Uma palavra bonita que sai sem querer, um pedido exagerado ou fora de ritmo, um abraço inesperado, uma gargalhada em sintonia, um presente especial. Há recados "que nos beijam como se tivessem boca".

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Por entre os dedos

Vivia uma realidade completamente nova. Não sabia como lidar com aquele cenário de filme. Não sabia dar carinho, não sabia dar atenção, nem sequer sabia pedi-la. Isso da entrega era novo, desconhecido, como um mergulho que se dá de cabeça sem pestanejar, sem medo de bater no fundo.

E como não sabia nada, limitava-se a reagir por impulso, à defesa, sempre a medo. Sentia que tinha um objecto frágil nas mãos, algo que a qualquer momento lhe podia escorregar por entre os dedos, sem que nada pudesse fazer para o reparar. A sua missão era apenas uma: proteger.

Reagia de forma maternal e (muito) exagerada como, aliás, reagem sempre as boas mães. Sabia admitir que o método talvez não fosse o mais ortodoxo, tinha consciência que nem sempre fazia as coisas da maneira certa, mas não sabia deixar de o fazer. Mesmo que soubesse, nada mudava: não queria, por nada, deixar de o fazer.

Chamava-lhe instinto de amor.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Maria

De olhar inocente e sorriso fácil: assim é Maria.

Maria é um poço de ternura, uma menina carregada de sonhos na bagagem que, à primeira vista, parece tímida, frágil e resguardada de tudo e de todos.
Mas Maria não pode ser analisada de passagem. Maria merece toda a profundidade deste mundo e do outro.
Guarda dentro dela uma força e uma garra incomuns, uma vontade de ser sempre mais e melhor, uma necessidade absoluta de realizar todos esses sonhos que transporta e de caminhar sempre de mãos dadas com os que ama.
Maria é um exemplo de coragem, de cumplicidade, de transparência. Maria é um ícone de sabedoria, de companheirismo e de amizade. Maria é mais do que isso. Maria é irmandade, espelho de alma e reflexo de vida.

Maria é criança, caçula e princesa.
Maria é mulher, a conotação mais flagrante de pureza e de amor.

É fácil gostar de Maria. Mais fácil ainda é apaixonar-se por Maria, a menina de cabelos longos e aloirados, de olhos doces e covinhas encantadoras. Quem, por sorte, se cruza no seu caminho, quer (e faz questão) de a manter sempre por perto.

Maria é o que mostra e o que esconde. Maria é o que agrada e o que assusta.
Maria é uma demonstração de carinho, um abraço apertado, uma inspiração.
Maria é trabalho e lazer, é (ir)responsabilidade comedida.
Maria é música calminha e MEC.
Maria é um sorriso cúmplice e uma gargalhada desprendida.

Maria faz bem, sabe bem e soa sempre bem.
Maria é-o-que-é: palavras atrás de palavras.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Coragem

Ele não tinha coragem. Brincava, fazia trocadilhos, ria-se, fazia-a rir, mas não tinha coragem. Ela não tinha coragem. Falava por meias-palavras, sorria, inventava formas de se pronunciar, mas não tinha coragem.

Faltava-lhes a oportunidade, o momento mais-que-certo, o timming.
O resto estava lá, mais presente do que nunca. Mas não era suficiente.
Ele sabia que não.
Ela sabia que não.

Faltava-lhes coragem mas soava cada vez mais alto, gritava cada vez mais alto aos ouvidos.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Sol

O espreguiçar dela era diferente desde aquele dia. Até o apagar a luz e fechar os olhos para dormir passou a ter outro sabor. Acordava com a certeza de que tinha o mundo nas mãos e deitava-se feliz por o ter encostado ao coração.

O sorriso, aquele sorriso tão dela, estava no auge, todos os dias, desde aquele dia. Sentia-se feliz. Feliz mesmo. Respirava fundo e dançava com a alma.
A cada passo que dava, mais certeza tinha do bom que era estar feliz. Feliz mesmo.

Cantava constantemente e toda a gente tinha a sorte de levar com o seu (antes raro) bom humor. Tudo parecia agora mais bonito, com mais cor. Ela própria estava meiga, carinhosa, compreensiva. Estava feliz. Feliz mesmo.

Os dias eram longos mas passavam à velocidade da luz. Contraditório, como a vida. Em contra-relógio, em modo decrescente, contava as horas, os minutos. Os segundos a passar soavam alto aos seus ouvidos. Já faltava pouco.

Ela estava feliz. Feliz mesmo.

domingo, 30 de dezembro de 2012

2012

Encontros e desencontros. Amores e desamores.
Amizades construídas, refeitas, amizades destruídas.
Pessoas que vão, outras que voltam e aquelas que não voltam mais.
Histórias que não têm tempo de ser vividas. Contos de fadas que nunca acabam.
Promessas para sempre, experiências vividas, sonhos realizados.
Sentimentos em reboliço.
Pensar rápido e viver ainda mais.

Ano de reviravoltas, de mudanças de rumo, de tiros certeiros e outros tantos no escuro.
Ano de trabalho, de amigos e de amor.
Ano de respirar fundo e agradecer. 

Foste bom, 2012.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Sentir

É quase como se respirasse de alívio a cada passo, como se sentisse que as peças se encaixam na perfeição, como se a harmonia fosse o elo de ligação entre todas as coisas.
Não lhe parece ilusão ou encantamento, nem tão pouco o sente. Sabe que não se assemelha a outra coisa. Sabe bem que não se assemelha a nada. Os batimentos não podiam ser mais certeiros.
O mundo conspira a seu favor e consegue notá-lo a cada olhar, a cada palavra, a cada cheiro de felicidade. Sim, a felicidade tem cheiro.
E é este.