quarta-feira, 22 de maio de 2013

O dom da palavra

Quem escreve – com e por prazer – reconhece a responsabilidade que tem em mãos logo no momento em que desenha a primeira letra. Escrever é, por si só, magia pura. Escrever e causar sensações nos outros é um dom que poucos têm e que muitos batalham para ter.

A responsabilidade de quem escreve é gigante e aumenta desmesuradamente quando toca os outros, positiva ou negativamente. O importante é tocar, é fazer pensar. É, essencialmente, transformar em palavras pensamentos de outrem, perdidos no tempo e na angústia de não serem reproduzidos.

E como qualquer acto responsável, escrever implica esforço e superação. A par disso, implica medo. O medo de não se ultrapassar, de cair no mesmo erro, de não corresponder às expectativas. É um medo saudável, quase defensivo com medo de estragar o que já está reconhecido e imortalizado. Mas também na escrita é preciso mergulhar de cabeça, arriscar e enfrentar esse medo de ser repetitivo ou enfadonho, esse medo tantas vezes impeditivo de dar corda às mãos.

Quem escreve sabe que não é fácil, que uma folha de papel em branco dá pesadelos durante a noite e que uma caneta sem tinta num momento mesmo perfeito pode comprometer uma história memorável. Quem escreve também sabe que o importante se guarda no coração e que é dele que saem as palavras, em maiúsculas, a implorar para se eternizarem numa folha de papel.

Escrever é magia e é responsabilidade. O dom, tem-no quem consegue provocar sorrisos e gargalhadas, fazer cair lágrimas e arrepiar do primeiro ao último parágrafo.

O segredo é esse: reproduzir em terceiros as sensações que estiveram na origem de cada palavra, conseguir tocar os outros com histórias que (aparentemente) não são as deles.

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